Qual a distância entre a barbárie e a civilidade? Sangue, nem que seja coagulado e podre, terá que ser derramado para que o caos não seja a única opção, junto de uma subsistência nômade sempre que o perigo ameaçar.

Um cerco com milhares de zumbis explicita o quanto nem todos estão preparados para a realidade pós-apocalíptica e ações devem ser tomadas. Elas não têm que ser as melhores, são as possíveis. E não há salvação para aqueles que entram em pânico. Sam já estava condenado, era seu destino morrer de medo, ser devorado por monstros, os de sua mente e os reais, e levar junto sua mãe. Representava tudo o que deveria ser superado em Alexandria.

the-walking-dead-s06e09-foto-extra-13-jessie-caril-ron-sam

Jessie em prantos, também estava perdida, obrigando Rick a finalizar o trabalho para que seu filho tivesse uma chance e então como um efeito em cadeia, Ron aponta a arma para o xerife, também tinha motivos de sobra – culpou, condenou e estava pronto para executar o homem que matou seu pai e cortou o braço da sua mãe, não há tempo para lógica e compreensão – e atinge Carl, após Michone atravessar a katana no menino, na tentativa de impedir o assassinato de Rick. Irônico poupar uma morte com outra? Felizmente, a médica já está devidamente pronta, superou seu pavor, e na enfermaria no momento em que o o paciente chega nos braços do pai.

the-walking-dead-s06e09-foto-extra-19-denise-lobo

No livro “O senhor das moscas”, traçando um paralelo com a atual fase de The Walking Dead, crianças perdidas numa ilha dividem-se em um grupo que aceita ter de se tornar selvagem para sobreviver, a condição posta parecia imutável, deviam se libertar das amarras sociais, e outro grupo, cada vez mais reduzido, queria ser resgatado, buscando estratégias. Ambos enfrentaram a situação da maneira que julgaram melhor, mas não se uniam e então eram dois extremos ineficazes.

Na obra literária, para manter uma fogueira como sinal a quem passasse pela ilha, era preciso mais que um menino alimentando as chamas, ou para sustentar uma caçada, sempre um esforço conjunto. Os sonhos de Deanna não eram utópicos. Após tanta destruição, talvez tenha chegado o momento de reconstruir, de começar a controlar o seu entorno, especialmente se estiverem em quantidade, e não apenas partir deixando para trás quem não era forte o bastante. Os dois grupos se farão necessários – aqueles que lutam, que “caçam” (ou buscam suprimentos) e aqueles que permitem a chama continuar acesa, pois não é uma função menor afastar os monstros, vivos e mortos, e garantir um futuro que nada mais é o resgate daquilo que havia de bom na civilização. Embora nem tudo precise “retornar à vida”.

O embate entre o mundo dos que ficaram do lado de fora dos muros, aqueles que experimentaram o terror em todas as formas, com muito sangue nas mãos, e o mundo dos que se preservaram protegidos em suas casas, e que até então não conseguia entender que deveria se adaptar, formou um novo grupo e este não vai entregar-se, ou sua fortaleza, gratuitamente. Não precisam brigar entre si, disputar quem está certo, pois têm o mesmo interesse, são co-dependentes para funcionar.

the-walking-dead-s06e09-foto-extra-09-lobo

Nesta nova configuração, Daryl perdeu a besta, mas não ficou triste, pois agora ele tem um novo brinquedo e gostou de usar (R.I.P. capangas de Negan – mas o vilão vai cobrar essas baixas). O Lobo, afinal, podia ter mudado, e ajudou Denise (ainda que com razões bem egoístas). Ela, por sua vez, percebeu que precisam dela e parou de ter medo. Mas Carol o alvejou e conseguiu abrir um pouco os olhos de Morgan, pois, de fato, ele só salvou o Lobo para salvar sua consciência, já que nem mesmo ele se convence de tudo o que prega. Carol, talvez, só não tenha atirado também em Morgan por identificar-se com alguém que perde um filho. Ela entende que leva tempo.

Glenn, até quando vai se esquivar da morte? No último instante! Porque ele continua sendo ele mesmo, se colocando em perigo para salvar quem ama, para impedir que aqueles que se foram deixem de existir. Este discurso ainda será fundamental para reger o comportamento de Maggie e Rick, caso um bastão esteja no caminho do ex-entregador de pizza.

the-walking-dead-s06e09-foto-extra-16-glenn

Carl e seu tiro no olho icônico das HQs. Rick pedindo para Denise o salvar e então, no auge do desespero, expurga a angústia ceifando zumbis, alucinado. É nítido que o descontrole emocional de Rick tem poder. Poderia dar tudo muito errado, mas sua explosão atraiu a comunidade para se unir, para ajudá-lo, pois naquele momento, para manter o lugar, seria a única opção, ou abandonar tudo novamente. Sua ação é pautada pelo medo de perder, não apenas o filho, mas a segurança, aquilo tudo que as circunstâncias pareciam estar roubando do futuro de todos. Até o Padre participou e não fez nada errado dessa vez (tensão quando ele levou Judith para a igreja)!

the-walking-dead-s06e09-foto-extra-04-alexandria-zumbis

“Quero mostrar um mundo novo para você”. Só que será visto apenas por um olho a partir de agora. Abraham, Sasha e Daryl surgem como a cavalaria bem em tempo de resolver de uma vez o problema.

Foi preciso perder quase tudo, destruir a noção de progresso humano, para então perceberem a importância da organização, da estrutura e da ordem. Às vezes é preciso romper com as regras da civilização, para recuperá-la e reinventá-la.

Siga Geekdama nas redes sociais!