As cenas iniciais e finais focando de forma intimista no rosto dos personagens dá o tom de “The Damned”: A guerra tem muitas faces. O principal argumento desse episódio foi que mesmo ao entrarmos em confronto com um inimigo assumido podemos encarar dualidades morais que nos fazem questionar se os fins justificam os meios.

Devemos matar todos? Há espaço para piedade? Ser herói ou vilão é apenas uma questão de perspectiva. Em meio a essa discussão que fica mais nas entrelinhas temos a adição da ação frenética, desorganizada e mal coreografada, mas frenética.

O nome do arco nessa primeira metade de temporada é “All Out War – Guerra Total”, ou seja, se faz necessário uma guerra, obviamente, então explosões, tiros e lutas supostamente devem consumir boa parte da história. Mas tudo deve servir para avançar a narrativa e também deve ter um bom fio condutor, pois se isso não ocorrer tudo se torna apenas uma sequência de cenas de ação genéricas.

No começo é interessante que o roteiro usa do mesmo artificio do “Mercy”, mostrando uma parte mais estratégica dos protagonistas, flanqueando, eliminando os elos de comunicação dos Salvadores e comandando as ações. O foco em Morgan, Jesus, Tara, Rick e Morales é inteligente porque são pessoas que exemplificam bem a dualidade moral que o episódio quer transmitir.

Todos têm uma boa índole dentro do limite que o apocalipse permite, valorizam a comunidade e protegem as pessoas ao seu redor, mas em contrapartida também são assassinos que carregam nas costas atitudes covardes. Ou todas as ações do Rick se justificam? Podemos inicialmente acreditar nisso porque estamos envolvidos com sua jornada, mas não podemos esquecer que tudo é uma questão de ponto de vista e essa é a beleza da dualidade em discussão.

Ao dizer “I don’t die – Eu não morro” Morgan estabelece uma alegoria interessante, pois podemos entender apenas como uma frase de impacto deferida por sua sanidade comprometida ou ele não pode morrer porque já está morto. Morgan perdeu sua esposa e filho, seu anjo da guarda que o reabilitou em “Here’s not here” e ficou isolado por meses, quiçá anos, convivendo apenas com a dor de suas perdas.

Quando ele volta a si algum fator externo, a guerra nesse caso, o faz retornar a escuridão e é por isso que o arco do personagem está totalmente insustentável. É provável que ele nos deixe em breve. Apesar de interessante essas idas e vindas acabam se tornando repetitivas e perdem o impacto.

Ezekiel é um caso interessante, pois há uma boa construção de conceitos na concepção do personagem. Ele era apenas um cara normal que usou desse artifício teatral para criar uma realidade paralela que tem por fim motivar, acalmar e trazer um pouco de ordem ao caos. Ele sabe que não é rei, todos sabem, mas se essa narrativa o dá forças e serve de alento a seu povo, é o que importa.

Apesar de conseguir elencar algumas questões que valem o debate o cerne do episódio foi de certa forma agridoce. O roteiro de Matt Negrete e Channing Powell se preocupou muito em mostrar o tiroteio entre o grupo B dos protagonistas e os Salvadores e deixou as questões morais da guerra em segundo ou terceiro plano. Tudo tende a se resolver, bem ou mal, mas temos que analisar cada episódio de forma individual e em “The Damned” essas questões ficaram rasas. Muito tempo perdido em cenas praticamente iguais e que não dão dinâmica a história que eles se propõem a contar.

Já que estamos falando sobre a ação; a munição não era um recurso escasso? Muitas pessoas podem achar essa crítica exagerada, afinal, é uma série sobre zumbis, mas mesmo o tema sendo fantasioso nem tudo é permitido. Quando existem regras que são estabelecidas no começo do jogo elas têm que ser seguidas porque se quebradas acabam se tornando muletas narrativas. A munição era escassa e agora que tem uma guerra em pauta se torna infinita? A verossimilhança se faz necessária para que as regras do mundo se mantenham coesas.

E por fim, Morales. Não há problema em trazer de volta um personagem desimportante da 1ª temporada, mas temos que ter muita, mas muita suspensão de descrença para achar natural esse fato. Ele pode até agregar com uma atuação interessante ou até em termos de história ser importante, mas é difícil imaginar que eles se reencontrariam anos depois, pois há milhares de quilômetros, e em tal situação. Só chamo a atenção para a suspensão de descrença que é necessária para achar isso legal ou interpretar como uma reviravolta.

Em suma “The Damned” não avança significativamente a história e apenas pincela pontos que se bem explorados poderiam dar mais substância a personagens coadjuvantes, como Tara e Jesus.

NOTA: 6.5/10

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