Na edição 184 dos quadrinhos de The Walking Dead fomos apresentados a um elemento que promete ser um divisor de águas na reconstrução da civilização pós-apocalíptica: a restauração de ferrovias.

A ideia era facilitar a comunicação entre Commonwealth, a mega-comunidade de Ohio, e as comunidades da Costa Leste – Alexandria, Hilltop, Reino, Santuário e Oceanside -, já que nas cartas da #188, Robert Kirkman fala que o tempo de trânsito entre Alexandria e Commomwealth é de uma semana.

A preocupação inicial do Eugene foi com a própria locomotiva, enquanto a prioridade do projeto deveria ser os trilhos pois sem eles o maquinário ferroviário de nada serviria.

Em comparação, será analisado a seguir as aparições de trens em outras mídias no mesmo universo dos quadrinhos de The Walking Dead, expondo os problemas e as vantagens de tal meio de transporte.

[SPOILERS DA PRIMEIRA TEMPORADA DO JOGO DA TELLTALE]

Primeiramente, na primeira temporada do jogo da Telltale, especificamente no terceiro episódio (Long Road Ahead), após escaparem dos bandidos que invadiram o Motor Inn, Lee e o resto de seu grupo encontram um trem e decidem viajar até Savannah nele, se aproveitando da velocidade do mesmo e de uma suposta pista limpa.

Foi aí que eles se enganaram. É sensato pensar que, em uma situação de total abandono e de uma catástrofe global, serviços que requerem uma manutenção ou vigia rotineira seriam os primeiros a apresentarem problemas. E assim aconteceu, com uma parada para retirar um caminhão-tanque do caminho da locomotiva.

Isso sem contar a crescente massa de zumbis que incessantemente acompanhava o barulho (ou, após um tempo, resquícios de um barulho ecoando na primitiva memória dos zumbis) também chegando, algum tempo depois (no quinto episódio) do trem e de forma dramática, a Savannah.

[FIM DOS SPOILERS DO JOGO]

[SPOILER DOS LIVROS DE THE WALKING DEAD]

Após isso, com um espaço amostral bem mais controlado, o sétimo livro da série literária de Jay Bonansinga, Busca e Destruição, nos mostra os pequenos assentamentos de sobreviventes ao redor da ferrovia da Georgia (Woodbury incluída entre eles) trabalhando em conjunto para reativar a linha do trem a fim de facilitar o escambo e a locomoção.

A ideia é mal-trabalhada, pois o trem e a malha ferroviária local logo são inutilizados por Lilly em sua busca pelas crianças sequestradas (esse, sim, o plot principal). Mas pelo pouco que nos é contado, a preocupação primordial é com os trilhos, revitalizados e reconstruídos igualmente por todos os assentamentos em aliança.

Como o livro se passa mais a frente na cronologia de The Walking Dead (embora não saibamos exatamente quanto tempo após o dia 0, tanto pela nebulosidade nesse aspecto quanto pelos erros de cronologia interna durante todos os livros), podemos assumir alguns aspectos da migração de mortos-vivos.

Saindo de seu vespeiro original, as grandes cidades, a massa desmorta se desloca em direção ao interior. E talvez isso explique, na HQ, o abandono completo de Pittsburgh durante um primeiro contato da caravana de Alexandria com Juanita Sanchez, a Princesa, quando aquela rumava para Ohio. Embora com esses potenciais problemas, tal ideia de um grande barulho atraindo hordas ao local não aconteceu (reforçando que esse não era a trama do livro e, provavelmente por isso, não trabalhado).

[FIM DOS SPOILERS DOS LIVROS DE THE WALKING DEAD]

Dito isso, temos dois eixos de análise: estrutura e perigos

A estrutura passa por dois elementos, maquinário e trilhos, com este sendo essencial para o funcionamento daquele. Considerando a distância entre Alexandria e Ohio (não sei onde exatamente se localiza a Commomwealth, então marquei o estado inteiro), o maior desafio será o desbloqueio, revitalização e reconstrução dos trilhos.

Após essa tarefa enorme, a necessidade de manutenção exigirá e até acelerará um novo passo na reconstrução da sociedade: a plena ocupação de territórios antes abandonados e tomados pelos mortos, pois as potenciais campanhas para o contínuo conserto de partes do caminho de ferro consumiriam muitos recursos e tempo, mesmo usando o próprio trem para este fim.

Assim, pequenos enclaves a beira da ferrovia teriam de ser fundados, tendo de ser autosustentáveis a médio prazo e com a tarefa prioritária de manutenção de um trecho X qualquer da própria malha.

Isso também daria jeito no quesito segurança, seja da ferrovia, seja dos próprios sobreviventes, já que a expansão dos assentamentos criaria um cordão de segurança e portos seguros ao redor da mesma e como proteção comunitária dos enclaves adjacentes, repelindo ameaças humanas e zumbis (esse sendo o principal problema que assolaria as linhas, a meu ver), usando como referência a relação dos habitantes das cercanias de Woodbury entre eles e com a linha de trem em expansão, dando conta dos possíveis perigos dessa empreitada.

E com o trunfo dos sistemas de gerenciamento de hordas desenvolvidos tanto pela Costa Leste quanto pela Commomwealth, a segurança contra os desmortos seria assegurada.

Naturalmente a Commomwealth teria de puxar esse grande empreendimento já que tem, de longe, a maior população das comunidades conhecidas, embora não saibamos a quantidade de pessoas que poderiam ser despendidas nesse trabalho a longuíssimo prazo.

Com a expansão dessa ideia, até a população conhecida e a rede de comércio entre comunidades poderia aumentar, pois o intenso trabalho em diferentes pontos do país, mesmo que entre 1 ou 2 estados, fariam aumentar as chances de se encontrar mais comunidades.

Com isso, todo o escopo de civilização aumentaria pois se faria necessária a crescente expansão das linhas em direção a esses novos assentamentos encontrados e estabelecidos. É um efeito cascata bem verossímil e interessante de ser abordado caso o Kirkman assim queira (mas pra isso o Eugene tem que sobreviver, né).

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Quais suas impressões sobre o uso de trens para a reconstrução da sociedade em The Walking Dead?

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