Ao enfrentar situações de violência extrema, perdas e ameaças, como Morgan, o transtorno do estresse pós-traumático (TEPT) pode se instalar. Há diversas formas de enfrentamento aos sofrimentos, uma delas é fugir de tudo que remeta àquele momento fatídico, pois as lembranças tendem a fazer as pessoas reviverem as sensações como se estivesse revivendo o fato. A estratégia de Morgan foi o distanciamento emocional, convencendo-se de que tudo deveria ser “limpo”. Mortos ou vivos, cedo ou tarde, iriam se decompor, virar monstros, e sua missão era livrar o mundo das transformações, uma consequência inevitável daquele universo – e do atual.

Todos mudam, Morgan mudou, Rick, Carol, Daryl, Carl… personagens que acompanhamos em drásticas e sutis alterações em sua forma de ser, exemplos de um contexto específico em que precisavam se adaptar para sobreviver.

Sua condição foi logo reconhecida pelo psiquiatra Eastman, com ampla experiência na área forense, caso contrário poderia não querer arriscar ter um louco perto de si, alguém que “não valeria o esforço”, pois para muita gente “ninguém muda”. Porém, não houve exatamente um ato de generosidade ou altruísmo absoluto. Embora estivesse genuinamente ajudando Morgan, Eastman (ou o homem do oriente, em alusão a seus conhecimentos) estava se ajudando ainda mais, encontrando, na prática, sentido em sua filosofia.

Rick também passou por momentos “fora da casinha”, ao ser forçado a matar o próprio amigo e depois perder Lori. Não fosse o suporte social que encontrara, talvez não tivesse retornado, e é possível que ainda esteja no limiar da sanidade.

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Crenças mal-adaptativas foram incorporadas aos esquemas cognitivos de Morgan, disparadas por eventos estressores, enviesando e determinando seu comportamento diante do apocalipse. Manteve-se num loop contínuo em que distorceu a realidade de forma sistemática e entrou no modo “automático”. Ele foi então confrontado com “escolhas”, inicialmente simples: dormir no sofá ou ir embora. Mas que aos poucos foram tomando forma complexa e revelaram mais possibilidades naquele mundo. Assim como Eastman, que não teve sua vida destruída por zumbis, mas por pessoas realmente ruins, que existiram, existem e existirão independentemente de pragas assolando o planeta.

Pequenos detalhes fizeram a diferença, como ser enxergado não apenas um assassino – uma parte de Morgan, assim como todos, com muitos mais ângulos para serem observados – o desenho de uma criança e o quanto tê-lo danificado afetou mais o “queijeiro” que tentar esganá-lo. Chega um momento em que as reflexões são realizadas e as crenças disfuncionais se fragmentam igual ao pedaço de parede que suscitou tanto investimento para ser recuperado. Fechar-se numa jaula é mais seguro, mesmo ciente de que não está realmente preso. Os muros que erguemos precisam ser derrubados por nós mesmos.

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Morgan aceita os conceitos da “arte da paz” e tal qual um “viciado” se recusa a matar, temendo perder toda a sanidade reconquistada? Descobrir a si próprio não é tão distante de descobrir portas abertas, o problema reside exatamente em atravessá-las e ver o que há do outro lado, dar um “olá” aos monstros que coabitam nosso corpo.
Eastman foi uma breve participação, importantíssima, e se muitos cogitaram que sua família havia se transformado em errantes, na realidade foi ele quem se transformou: de vingador – jamais condenada sua ação contra o psicopata, perguntem-se o que fariam se no mesmo lugar – a pacifista que busca absolvição por seu descontrole. Ele não viveria em paz se não tivesse matado o algoz perverso, mas também não encontrou paz após enterrá-lo e ocupava sua mente cavando mais covas, tentando fazer queijo, preparando-se para uma viagem, “porque aqui, não é aqui” e permanecer no lugar, não mudar, é ficar no passado, onde ainda é doloroso.

Teria Eastman sido tão paciente e generoso com Morgan se houvesse algum ente querido na casa, colocando-o sob ameaça? Morgan pode estar colocando as vidas de muitos em risco e cometer um erro incomensurável. O Lobo capturado não tenta usar pele de cordeiro como aquele que passou 47 dias numa jaula.

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Não foi o Aikido que salvou Morgan, foi um homem, um amigo que levava a filosofia da arte marcial consigo e, principalmente, a lição de que não se pode estar sozinho, ou seremos apenas walkers vagando sem rumo numa busca sedenta por sangue.

O 4ª episódio da sexta temporada foi mais extenso e lento, deixando as perguntas da semana passada em aberto, mas foi relevante. Para que haja ação é preciso compreendermos as atitudes, as motivações, ou seja, o que dá o combustível a cada um e o que os transforma, para o bem ou para o mal. Não foi diferente quando o psicopata transtornou-se ao descobrir que Eastman não o deixaria livre, ou quando Carol assumiu que não podia mais ser aquela que aceitava bofetadas de marido, tampouco quando Rick descobriu que o cargo de líder vem com um fardo pesado para carregar e que precisa encarar as consequências, ou quando Michonne, mesmo com toda sua força, percebeu que sozinha estaria caminhando igual àqueles que morreram. Glenn não se transformou em outra pessoa, seria então esse seu crime e por isso há de virar um zumbi?

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