O luto exige adaptação. Fases, como a negação, o isolamento, o choque, a raiva, a desorganização, o desespero, a barganha, a depressão e a aceitação, se manifestam, não necessariamente seguindo uma ordem linear, podendo algumas serem mais duradouras e se repetirem.

A personagem que indubitavelmente sofreu a maior transformação ao longo dos anos no apocalipse de The Walking Dead, embora não tenha se tornado um zumbi, foi Carol, que ainda não superou o luto. Se livrou dos abusos físicos e mentais do marido – leva-se tempo para processar, especialmente quando se está perto demais para ver a vantagem da situação – depois perdeu a filha. A dor, quando não mata, fortalece, porém, às vezes, essa força endurece a pessoa a tal ponto que não se pode mais derrubar os muros que a protegem, ainda que a capacidade exista.

Após escolher o caminho da sobrevivência, carregando o peso da saudade de Sophia, Carol passou a enxergar a vida de forma mais prática. Duas pessoas incineradas e nenhum sinal de remorso, depois um tiro na cabeça de quem olhava para as flores. Uma sequência muito bruta de eventos que chegou ao cúmulo com a morte de um menino assustado. Ela não permitiu aproximação ou ofereceu o carinho que ele buscava, então a perda de si mesma se destacou. Quem é essa pessoa que acorda todos os dias sem expectativas, sempre esperando e pronta para o pior?

Na tentativa de viver, morremos um pouco todos os dias. E o que difere os vivos dos meros caminhantes sedentos por sangue? Talvez exista algo podre em Carol – não provocado por uma mordida que acelera a infecção – num órgão vital que não pode ser amputado – contido para não tomar conta de seu corpo inteiro, pois não haverá mais volta. Então ela vive as fases do luto, todos, quase que simultaneamente.

Carol foi chamada de a grande badasss, pois é assim que ficam todos aqueles que não têm mais nada a perder, mas percebeu que sim, ainda restara algo. Até os badass são humanos, se fragilizam e precisam de tempo para se recuperar. Ela foi para um lugar que diversas mitologias descrevem como mágicas, onde o tempo não passa e onde tudo de ruim do mundo fica distante, a exemplo de Tir Na Nog (recomendo). O problema é que tudo de bom também é deixado longe e a ilusão cedo ou tarde se desfaz. Ela tem o privilégio, mesmo que breve, de se distanciar, mas assim como nas terras encantadas, eventualmente precisará sair de lá e encarar a verdade, aceitar em definitivo, dar-se conta de que o mundo continua girando e não adianta fingir que nada acontece, pois não basta para nada acontecer.

Daryl resumiu o episódio com sua frase direcionada a Morgan: “Abra a p¨%%$# dos seus olhos”. Não teve coragem de dizer o mesmo à amiga. Não era o momento. Numa emergência, em primeiro lugar salvar-se, caso contrário, não dá para ajudar quem precisa. E Carol deve curar-se da ferida que está aberta, antes de decidir entrar na guerra que é viver. Que não seja tarde demais, que muito tempo não tenha passado, e que muitas perdas não somem à tantas outras quando ela finalmente perceber que sobreviver também implica em matar: vivos, mortos, arrependimentos, tristeza, medos… e um pouco de si. O luto da nossa própria morte às vezes passa despercebido pelo tiquetaquear incansável.

Siga Geekdama nas redes sociais!