O jeitão esquisito de Garret Dillahunt sempre me agradou desde Deadwood, cujo final marcado por um longa em 2019 entregou uma conclusão até que satisfatória, mas bem pé atrás para minha pessoa que achara melhor uma investida episodioca, o que automaticamente me fez simpatizar com seu personagem assim que visto nos primeiros minutos de What’s Your Story? (S04E01), e, também, amar de paixão sua interpretação em Laura (S04E05), um dos poucos episódios realmente bons desde o reboot.

Ou seja, assisti à este episódio com um sorriso largo no rosto.

John Dorie era o incremento que faltava nessa estrutura antológica que vem marcando o começo da 6ª temporada.

Acompanhamos o pistoleiro duzentos e poucos dias em Lawton prestando seus serviços de guarda à Virginia. Nesse meio tempo, vinha usando as roupas lavadas por Janis como um pombo correio para se comunicar com June.

Num belo dia, Cameron, um dos vigias, não está presente na troca de turnos e o grupinho não demora a encontrar o sujeito enroscado no arame recebendo um cheiro no cangote. A partir daí, inicia-se uma busca incessante de John pelo culpado.

The Key, então, vai para o lado mais investigativo da coisa. Não inova o gênero nem nada parecido, mas consegue render uma boa fórmula para com o universo zumbi, coisa que os episódios anteriores vinham tentado fazer com histórias potenciais que, infelizmente, eram resumidas, como foi com a praga dos ratos.

O processo de investigação não é algo extraordinário, nem tampouco perdura de modo que fique irritantemente chato de acompanhar, uma vez que todas as acusações apontam para Virgínia logo de cara.

O foco de David Johnson, em seu roteiro, é na moralidade. E colocar Victor ao lado do caubói bom moço - pela segunda vez - é uma forma certeira de trabalhar essa balança moral.

Quando o caso progride, com uma ajudinha da já desesperançosa Janis, John percebe que está mais próximo da linha tênue de seguir ou não as regras. A história de seu pai vem parar reforçar mais essa ideia, mostrando que o pistoleiro está disposto a correr riscos para fazer justiça, mesmo tendo a chance de fugir e procurar por sua amada.

Seu veredito, contudo, é tardio e abre espaço para o lado violento do caubói bom moço que rende umas bofetadas em Victor – achei foi pouco -, que embora pareça estar no lado negro da força, usufruiu bem de suas habilidades pioneiras para livrar o reto de John, que certamente estaria em risco caso fugisse.

Mais um ponto para David, que conseguiu subverter fazendo-nos pensar sobre tal decisão tomada por Strand e, hesitantes, concordar com ela. Não muito diferente do que fora na morte de Sanjay, no 2° episódio.

Era Janis ou John, ou os dois. Isso não podemos negar.

Com certeza veremos muito mais desse Victor egocêntrico daqui para frente. Talvez seguindo o mesmo papel de agente duplo sempre acompanhado de suas artimanhas imorais. Algo que pode resultar, receio, em sua morte nos momentos decisivos com algum tipo de redenção ou pegadinha do malandro.

Voltando a John. Ele se vê nessa balança novamente quando também promovido, recebendo mérito por desvendar o caso.

Mas Virgínia não para por aí. Depois de saber tudo e mais um pouco pelas cartas transferidas as escondidas, ela suborna o cauboi trazendo June de volta aos seus braços. Um golpe baixo para terminar sua jogada e deixar John pianinho.

O dente cariado simboliza então essa dominação as espreitas da cowgirl e da cidadezinha de Lawton, que não à toa, atormenta John a cada vez que progride na investigação. Deixando nas entrelinhas de que nesse plano ele vinha caindo feito patinho.

Arrancar o dente, no fim, mostra que John de modo algum vai permitir ser domado pelas rédeas de Virgínia, por mais positivo que seja seu pacote premium de benefícios.

Mesmo com toda esse esquema que custou a vida de um guarda (ela nem liga para eles, então tanto faz.), falta muito para vermos Virgínia como uma verdadeira ameaça e com boas motivações.

Digo isso pois a personagem está há sete episódios no total, e até agora não temos absolutamente nada de sua história que venha lhe trazer algum senso de periculosidade além da manipulação. O mesmo vale para Dakota, que parece agir feito um NPC ajudante de puzzles, dizendo “tente isso”, “faça aquilo”.

Prevejo a menina vendendo itens daqui alguns episódios e agradecendo após um he,he,he, num tom de voz grave.

Elogiar os quesitos técnicos por aqui é chover no molhado, mas vale mencionar o bom uso do texto por Ron Underwood.

Trabalhando muito com as luzes em três pontos – o famoso Three-Point Lighting -, o diretor passa melhor a dúvida que permeia John em cenas que dividem seu rosto no lado mais claro e escuro, também imprimindo a podridão do lugar consumida a cada canto de Lawton.

Closes práticos são bem inseridos no rosto de Dillahunt que consegue transmitir muito sem dizer nada. Além da fotografia noturna sempre exemplar que dispensa comentários.

No lado de Morgan, não tenho muito a dizer. Parece que teremos aparições esparsas dele até que o plano de juntar uma milícia seja concluído à la Nick Fury, sem tapa olho e com uma dúvida estranhamente forçada de que se vai ou não ser reconhecido pela amada.

Dentre todos os episódios, temos aqui um bem sólido que consegue engajar com uma premissa simples, mas fora da curva que anda na frágil linha presente entre o certo e o errado.

Ainda sim, vindo de um histórico longo marcado de vacilos e bondade demasiada, continuo receoso para o resto dessa temporada sombria. E, saiba, pé atrás é apelido.

Nota: 4/5

Siga The Walking Dead BRASIL nas redes sociais!