Desde o reboot, a presença dos personagens antigos foi ofuscada drasticamente. Quando os víamos, eram em momentos avulsos pregando auto-ajuda na companhia de um roteiro totalmente indiferente como no tedioso You’re Still Here (5X11).

O 2º episódio da 6ª temporada de Fear The Walking Dead (S06E02 – “Welcome to the Club”) é aquele tira gosto para o público antigo que não deixou de ter uma amargura com o que a série se tornou.

Temos Alicia, Strand e um Daniel sob lavagem cerebral  –  falarei mais adiante  -, tendo os dois primeiros o dever de fazer uma faxina em um armazém depois de recusarem um trabalho de merda (sem trocadilhos).

Lennie James (estreando na direção) mergulhou de cabeça na estrutura de filme terror B. É zumbi melecado que vocês querem? Pessoas morrendo por burrice? Ação desenfreada? Bom, esse episódio tem um pouquinho de tudo.

Exagerei? Sim.

Mas é que realmente a sequência no armazém me rendeu mais risadas do que qualquer outra coisa.

Os holofotes da vez estão em Strand. Acompanhamos sua (des)evolução por boa parte de narrativa. No começo temos um Victor disposto a qualquer coisa para eliminar os guardas do posto avançado, mas que aos pouquinhos regride para a sua antiga persona - a mesma que vendera seus amigos para uma gangue de motoqueiros, no longínquo Things Bad Begun. - conforme a execução do plano cai por terra.

Vê-lo entregar Sanjay aos mortos e depois mentir na cara de pau foi o ponto final para concluirmos tal virada. E confesso que abri um sorriso largo, porque depois de uma temporada inteira cheia de bons samaritanos que deixavam qualquer um pisar neles, um momento desses merecia ser apreciado.

No final, toda aquela algazarra composta por esquisitices - ninguém pensou em passar por baixo da rampa para pegar as armas? -, zumbis burgueses-jumpers e vigias sugados diretamente por um portal aberto do chão pelo Dr. Strange, descobrimos que tudo não passava de um ritual de iniciação/sobrevivência do mais forte.

É aí que Victor ganha sua medalha de ouro. Ou melhor, “a chave da cidade”.

Mesmo que nítido seu desconforto em ser a mesma pessoa de antes, tenho para mim que assim como Morgan, Victor será os dois extremos da moeda daqui para frente. Não querendo afetar as pessoas ao seu redor, mas também não deixando seus amigos de lado. Mas se realmente houver uma mudança drástica que o fará estar do lado de Virgínia decididamente, será uma baita de uma reviravolta.

Colman Domingo foi bem dirigido na retomada da antiga identidade de seu personagem, numa interpretação que poucas vezes deixou a desejar no decorrer da série. Estou curioso em ver como ele irá lidar com essa mais nova mudança.

Os demais cumprem seus papéis no limite que o texto propõe. Espero muito um episódio para que Alycia possa ter o espaço merecido e nos entregar performances a mais do que as meras coadjuvantes que tem tido.

Dakota, irmã da Virgínia, mostra um certo carisma logo de cara. Só me faz torcer o nariz vê-los confiando na jovem sem mais nem menos, mesmo depois dela dizer seu parantesco. Aliás, que diabos de ideia é essa da Virgínia de manter a irmã sob a proteção de símios bêbados que morrem num piscar de olhos? Melhor ela rever isso aí.

A direção de Lennie James não deixa a desejar. Sabe bem conduzir seus atores e tem os bons jogos de câmera que curiosamente sempre estão no chão, além de algumas nuances, como o espelho que reflete a imagem de Virgínia bloqueando o rosto de Victor, em um prenúncio da “vira-casaca” do sujeito.

A fotografia de Adam Suschitzky, como sempre, impecável. Constrastes meio amarelados e bem sobrepostos que me fizeram lembrar de cara o trabalho de Marshall Adams em Better Call Saul, só que menos saturado.

Guardei Daniel especialmente para os últimos parágrafos, pois esse aqui tem tratamento diferente.

Confesso que caí na mentira do ex membro do Sombra Negra.

Por quê?

Bem, depois de vê-lo totalmente nerfado e bom moço na temporada passada não me surpreenderia se os showrunners fizessem um remelexo que tirasse toda a consistência do personagem. Mas graças a isso, junto a excepcional interpretação de Rubén Blades, caí direitinho no conto do vigário.

O que temos é nada mais nada menos que o retorno do Daniel Salazar astuto e agora duas-caras. Se os showrunners usarem da mesma receita de Carol-Ripley-Bond da 5ª temporada, com uma pitada a mais de gasolina, acredito que teremos uma baita de uma trama promissora cheia de mentiras e mortes. Muitas mortes!

Mas não quero me adiantar. Caso contrário, a decepção será muito maior.

Ignorando as asneiras, temos um episódio até que sólido para o nível que a série vinha tendo. Se FTWD conseguir regular com eficiência sua metade antológica, teremos algo de bom potencial em mãos e arrisco dizer, melhor do que a última temporada da série-mãe foi.

Nota: 3/5

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