Alicia se afastou de Morgan no início da tempestade e achou abrigo em uma casa em algum lugar do Texas. Esse isolamento que já vinha sendo posto em prática na estufa do jardim da mansão de pedra, agora é mais profundo e complexo, uma vez que a jovem Clark está completamente sem rumo e sem motivações.

Mas Alicia não esperava encontrar justamente nesse refugio a sua grande algoz e causadora de todos seus infortúnios e desalentos. Charlie, a pequena assassina estava lá, feito uma ratazana sorrateira, o que coloca a saúde mental de Alicia em xeque, lhe forçando a uma sessão de terapia frontal, totalmente expositiva, encarando a figura materializada de seus mais profundos pesadelos recentes.

Charlie não precisou fazer esforço algum, aliás, não precisou emitir nenhum som de sua garganta para que Alicia começasse a colocar pra fora todo o mal que acumulava desde a queda do estádio. Culpou a garotinha pela morte de sua mãe, pelos desdobramentos do Diamond e por fim pela morte de seu irmão, com direito a chama-la de lixo e desejar que morresse de velhice, para carregar consigo todo o mal que já espalhou pelo mundo. De fato uma cena pesada, contundente no peso dramático e com tom melancólico, apoiado pelos sons da tempestade. Fear é puro drama no apocalipse!

Como se tudo isso não fosse o suficiente, essa casa-abrigo que Alicia encontrou, outrora abrigou uma família que tinham porta-retratos espalhados por todo canto, para o desespero da orfã, perturbando ainda mais sua mente, lembrando-a de que há pouco tempo atras ela tinha a sua própria família.

Um ponto curioso nesse episódio é que ele foi parado, porém mais tenso e instigante que seu antecessor. Não sei se foi de bom tom escalona-lo logo após uma estreia já bastante pacata. Talvez ele prejudique ainda mais a audiência, mas não tem como negar, foi um episódio necessário, encantador e que colocou duas personagens que estavam completamente perdidas na trama de volta ao jogo, recuperadas na medida do possível e assimilando as atrocidades que passaram.

A dobradinha em cena deu certo, por incrível que pareça. O momento em que as duas estão presas no porão da casa, com água até o pescoço e sem a menor aparente chance de sobreviver, foi um primor, um espetáculo de atuações, deixando o retador com os olhos marejados e até mesmo com pena da pequena  Charlie.

Nesse momento vemos que de fato Alicia carrega a essência e o legado da Madison (“No one’s gone until they’re gone”), enxergando na Charlie o mesmo que ela estava passando, cada uma por seus motivos. E no seu íntimo, entende que o certo a se fazer não é  vingar-se ou necessariamente perdoar a garotinha, mas sim ajuda-la a encontrar um rumo e aprender a conviver com seus traumas.

Esse episódio revelou um pouco mais o passado de Charlie, com o intuito de aproximar a personagem da audiência e mante-la na trama de forma mais coesa (isso vai dividir opiniões).

As duas conseguem, aos trancos e barrancos (de maneira bem apelativa) sair da casa e após a passagem da tempestade, Alicia lembra que deixou Morgan para trás, bem como Strand e Luciana. De imediato Charlie lhe oferece ajuda e ambas partem em busca do fragmentado grupo. Passam por todos os locais antes habitados por seus amigos e só o que encontraram foi um verdadeira desolação, reforçando minha tese de que o grupo vai se reunir por completo próximo do final da temporada.

Confesso que em muito me desagrada essa “reconciliação” entre Alicia e Charlie. Creio que ela jamais seria possível, me remetendo ao paradoxo Rick e Negan. Mas por outro lado consigo enxergar que essa atitude benevolente de Alicia nada mais é que a sombra de sua mãe pairando em seu interior. Ou seja, fazer o bem sem ver a quem, no intuito de construir algo grandioso.

Alicia sai renovada desse episódio. A chuva foi o gatilho da sua evolução, levando consigo todo o mau sentimento que nutria. Se compararmos esse episódio a outro dessa mesma temporada, seria o Laura (4.05), onde o mergulho no íntimo de poucos personagens constrói uma narrativa delicada e muito poderosa, mostrando que quando é bem escrito, a ação não se faz necessária, e que apenas os diálogos, ou a falta deles, podem transmitir sentimentos avassaladores ao espectador.

Os núcleos vão se unir aos poucos conforme a trama avança. Creio que veremos o que cada um passou durante a tempestade, culminando no reencontro de (quase) todos em algum momento muito difícil. Provavelmente teremos perdas nessa jornada, mas até lá está sendo bem interessante ver a forma com que a série tem abordado esses episódios de núcleos separados e isolados. O que seria mais do mesmo, vem sendo uma grata surpresa.

Nota: 8,0

P.S: Desde o retorno da segunda metade da 4ª Temporada, a música que acompanha os créditos finais, tem sido a que embalou o exato momento da morte da Madison (4.08). Além de ser uma bela referência, mostra como o legado dessa personagem ainda vai repercutir na trama e na vida dos sobreviventes.

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