“A existência precede a essência”, esta é a premissa básica do filósofo francês Jean-Paul Sartre em seu texto O Existencialismo é um Humanismo.

O homem está só, não há Deus, ele é livre para fazer tudo e isto também é uma forma de condenação, uma vez que depende dele e só dele sua existencia neste mundo, ou melhor a existencia de todos, pois uma vez feita uma escolha, esta não serve apenas para quem a fez, mas para toda a humanidade: “Ao afirmarmos que o homem se escolhe a si mesmo, queremos dizer que cada um de nós se escolhe, mas queremos dizer também que,escolhendo-se, ele escolhe todos os homens”.

Posto isto, como podemos analisar o mundo  pós apocalíptico de The Walking Dead, no qual todas as formas de organização social institucionais ruíram, colocando os homens em estados primitivos de sociabilização?

O 14º episódio da 4º temporada, The Grove, trouxe a baila dilemas éticos difíceis com a decisão polemica de Carol em eliminar Lizzie, uma criança, por esta apresentar um comportamento doentio, como assassinar sua irmã menor para que ela virasse um zumbi.

Decisões éticas difíceis fazem parte do universo de The Walking Dead, mas nada que se assemelhe a eliminar crianças, por si só seres ingênuos e puros, com o futuro pela frente, mesmo que no caso de Lizzie, ela não fosse um  poço de bondade e nem o mundo apresente possibilidades de futuros brilhantes para as crianças sobreviventes.

A situação é ainda chocante por ser Carol a carrasca. Foi ela, não Tyreese a responsável por puxar o gatilho. Qual dos marmanjos sobreviventes teriam o sangue frio de faze-lo? Acredito que Daryl apenas. Foi ele que retira a arma da mão de Rick e dá um fim a agonia de Dale, um personagem querido, o primeiro elo dos personagens com a humanidade como sendo boa, como gostamos de pensar, perdido. O mundo não é bom. Ele sabe disto. Carol sabe disto. Sempre soube.

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Para mim Daryl e Carol são dois lados da mesma moeda: uma existência triste, sub julgada pelo outro, uma baixa  autoestima.  O arco dramático de Carol durante estas 4 temporadas é algo admirável e digno de qualquer um dos atores ter inveja por seus personagens.

Vejamos como Carol foi se transformando:

Na primeira temporada, ela é vitima de abuso doméstico, dona de casa, tem um marido que se insinua para filha. Sophia era a única coisa boa em sua vida, uma pureza perdida pelas próprias marcas de abuso do marido e sabe-se deus lá o que mais em sua vida prévia.

Seu turn point se dá durante a segunda temporada, a morte de Sophia é um duro baque. A pureza se desvanece, neste mundo não há nem a remota possibilidade de sonhar sobre um mundo bom. Sua filha não apenas morre, ela se torna concretamente a face da desumanização, o terror que aflige este mundo. É talvez um dos episódios mais duros, ver Sophia sair daquele galpão e afirmar que nada será como antes, para ninguém. Ela não quer ir ao enterro “daquela coisa”, aquilo não é sua garota, seu ideal de humanidade. Neste momento ela se aproxima de Daryl que procura desesperadamente por Sophia, para ele também é importante não perder de vista aquele sopro de ingenuidade, de pureza. Parece às vezes mais difícil para ele a morte da garota do que para mãe. Eles se entendem no desespero e no niilismo que gostariam de não enxergar.

Na terceira temporada, o início da vida na prisão, cabe à ela ser a cuidadora, ela auxilia Hershel nas tarefas de saúde. É um jeito de se achar não só útil,mas uma maneira de manter um elo com o mundo prévio, da visão como já foi dito, de uma humanidade boa, altruísta, com valores morais ainda que capengas, ainda funcionando. Ela já não é mais tão indefesa, mata sozinha uma zumbi para poder treinar uma cesariana em Lori.

Carol Peletier

Nesta temporada, ela já se transformou, faz parte do conselho, tem destreza com armas ( brancas e de fogo). Ainda como mulher mais velha do núcleo principal da prisão, cabe à ela alguns cuidados com Judith, embora a pequena passe mais tempo com Beth, boa, ingenua e aparentemente fria como uma pedra ( uma maneira que encontrou para lidar com as desgraças todas que os cercam) e mais cabe à ela um espaço com as crianças. Uma biblioteca para contar histórias, lições. Como se o mundo não tivesse mudado em nada, como Rick, agora fazendeiro, quer, ao afastar Carl do mundo cruel cheio de armas, morte, como se ele pudesse por mágica afastar dois momentos cruciais na vida do garoto: ter matado Shane e sua própria mãe.

Entretanto Carol sabe que a bondade é apenas um conceito bonito neste mundo, não é possível mais às crianças serem…crianças! Ela secretamente ensina aos novinhos como sobreviver, ou seja é matar ou morrer e ensinar ou melhor doutrinar uma criança nesta fé é enterrar de vez qualquer traço de uma civilização prévia: não existem lei, moral, religião, para se estar vivo é preciso ser duro e tomar decisões difíceis, é preciso retirar toda a compaixão, toda ligação com o próximo. Só assim uma pessoa é capaz de matar duas pessoas doentes que traziam riscos para o grupo inteiro e ao fim tomar a decisão fria de eliminar uma garota.

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Lizzie e Mika eram sua projeção de Sophia, as salvando ela poderia salvar a si mesma e a sua filha, não mais um ideal de pureza, mas num mundo duro e cruel. Mika no último episódio em diálogo com Carol dá mostras de que não abandonaria sua humanidade tão facilmente: matar é errado, sentencia. Ela não poderia nunca matar um ser humano e veja bem acabou sendo morta pela última pessoa que deveria atentar contra sua vida: sua irmã. Imagine para Carol que lutou tanto pelas duas, pela sobrevivencia de ambas ver a chocante cena de Mika desfalecida e Lizzie alucinada com as mãos cobertas de sangue.

Não foi nenhum bicho que a pegou desprevenida, foi “fogo amigo”. Carol diz a Tyreese “ Eu deveria ter percebido”. Porque não se trata apenas de uma garota confusa com o mundo atual, trata-se de uma garota desequilibrada não importa em quem mundo eles vivessem, mas em tempos tão confusos e difíceis, como perceber, ou melhor, estabelecer o que é certo e o que é errado? Como desenhar a linha que separa sanidade de loucura e vilania antes que uma tragédia como esta se abata sobre eles?

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É preciso decidir, contudo, os limites, é preciso delimitar o que será aceito ou não. Responsabilidade por seus atos. Ao escolher a si mesmo, o homem está escolhendo a todos os homens. Ao escolher ser dura, fria e calculista Carol está também escolhendo este destino para todos os sobreviventes, ela afirma assim que todos são e agem desta forma, é desta maneira que o mundo opera atualmente. Resta saber como ela e os outros lidarão com o peso de uma sociedade absolutamente amoral e imediatista como esta à longo prazo. Não é possível não tomar a responsabilidade para si dizendo “era preciso” ( como inúmeras vezes Rick o fez). A existência de fato precede a essência.

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